No decorrer da história humana o cabelo teve significados muito importantes para as mais diversas culturas.

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Sempre presente desde os primórdios da humanidade, a origem do cabelo precede a própria existência da espécie humana.

De acordo com um estudo realizado em 2012, um dos remotos ancestrais do ser humano do grupo Synapsida não pode ter desenvolvido cabelo antes de 299 milhões de anos atrás.

Os mais antigos fósseis que revelam sinais de cabelo pertenceram a espécimes de Castorocauda lutrasimilis, por volta de 220 milhões de anos atrás, conforme estudo feito em 2006.

Porém, em algum momento da evolução, o ser humano perdeu a maior parte de seus pelos, tornando-se um dos primatas com menos pelos no reino animal.

É importante ter em mente que o cabelo não é uma característica meramente estética. Na verdade, o cabelo dos mamíferos desempenha diversas funções, como a proteção da pele contra ferimentos, radiação ultravioleta e intempéries do clima.

O ser humano é a única espécie que sofreu uma perda significativa de cabelo durante os últimos milhões de anos. Atualmente, existem diversas hipóteses para datar a perda do cabelo corporal, com a manutenção do cabelo na cabeça e nas regiões pubianas.

Os primórdios: hipóteses para a perda do pelo corporal

Por exemplo, de acordo com a hipótese segundo a qual o ser humano moderno tem sua origem localizada na África, a perda do cabelo corporal coincidiu com o escurecimento da pele humana.

Outra hipótese interessante envolve a genealogia dos piolhos. Nesse sentido, descobriu-se que o atual piolho-da-púbis descende do piolho dos gorilas, tornando-se uma espécie própria há cerca de 3 milhões de anos atrás.

Isso indica que, antes dessa data, o ser humano havia perdido pelos corporais, mantendo o cabelo da cabeça e na região pubiana, e que adquiriu os piolhos matando gorilas ou dormindo em seus ninhos.

O piolho ainda traz outra informação interessante a respeito da evolução do cabelo na história humana: a evolução do piolho do corpo a partir do piolho da cabeça sugere que as roupas surgiram há cerca de 100 mil anos atrás.

As glândulas sudoríparas, por seu turno, também funcionam como elementos importantes nessa investigação.

Isto porque se acredita que essas glândulas podem ter evoluído para se adaptar à perda de pelos corporais. Ou então, inversamente, que a perda de pelos no corpo se deu justamente para facilitar o processo de suar.

São poucos os animais que têm a capacidade de suar na maior parte dos seus corpos. Nós humanos compartilhamos essa característica, por exemplo, com o cavalo. Todavia, esse animal é maior e, ainda assim, manteve o pelo corporal.

Outra teoria envolve a seleção sexual, que teria desempenhado um importante papel não só na seleção de longos cabelos na cabeça, mas também no dimorfismo sexual observado nos cabelos de homens e mulheres.

Contudo, não há evidências no sentido de que a seleção sexual teria realizado uma mudança tão drástica há mais de um milhão de anos atrás, época em que, ao que tudo indica, mais pelos corporais indicariam saúde, favorecendo e não desfavorecendo a seleção.

Uma hipótese diferente sugere que a redução do cabelo humano está relacionada à uma reação a ectoparasitas.

Essa hipótese se baseia na premissa de que um primata sem cabelos carregaria menos parasitas. Ainda, o fato de nossos ancestrais terem adotado arranjos sociais em grupo parece ter contribuído para o aumento de ectoparasitas, como piolhos.

Isso se dá em virtude desses arranjos envolverem convivência próxima de grandes grupos de indivíduos, ao contrário de outras espécies de primatas que, apesar de terem arranjos grupais para dormir, estão sempre em constante movimento.

Vale ainda destacar a interessante hipótese de que o uso pelos seres humanos do fogo pode ter causado ou pelo menos iniciado a redução do cabelo humano.

 

Papel social do cabelo na cultura

Dando um salto de algumas centenas de milhares de anos, percebemos que, na cultura da história humana, o cabelo desempenhou e desempenha até hoje um importante papel social.

– O cabelo simboliza várias coisas em nossa sociedade.

– Um cabelo saudável indica juventude.

– Um cabelo de certa cor e textura pode apontar a descendência étnica.

– Cabelos brancos ou cinzas indicam idade ou traços genéticos, assim como a calvície.

– É possível aprender muito sobre uma sociedade a partir do estudo de sua estética capilar.

Estilo do cabelo

A estilização do cabelo, enquanto estética capilar, é algo muito antigo na história humana.

Com efeito, os registros históricos mais antigos apontam para a existência da prática de trançar os cabelos há cerca de 30 mil anos atrás.

Embora a cultura capilar indique que o cuidado com o cabelo feminino foi, frequentemente, muito elaborado e cuidadosamente estilizado, em muitas culturas a mulher não podia exibir o cabelo fora de casa, especialmente a casada.

É um traço comum a diversas culturas capilares o uso pela mulher de cabelos longos.

A percepção do que é considerado atraente é algo em constante mudança na história capilar humana. Por exemplo, entre os séculos XV e XVI, um contorno do couro cabeludo bem alto na testa era considerado elegante.

Por volta da mesma época, um estilo comum na Europa para homens era manter o cabelo curto, no máximo até os ombros. Isso veio a mudar no início do século XVII, quando a estética capilar masculina passou a valorizar cabelos mais longos e cacheados.

Prova disso é a adoção da peruca pelo monarca Luís XIII da França, e posteriormente pelo mundo anglossaxão.

No final do século XVII, as perucas eram longas e onduladas. Porém, por volta da metade do século XVIII, elas passaram a ser mais curtas e, popularmente, brancas.

Já a adoção do estilo de cabelo curto para homens é algo atribuído ao movimento neoclássico na Europa.

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No início do século XIX, a barba masculina ganhou proeminência, com destaque para bigodes e suíças.

Entre os séculos XVI e XIX, o cabelo da mulher na Europa passou a ser cada vez mais visível, com a redução do costume de cobri-lo inteira ou parcialmente.

A partir da Primeira Guerra Mundial, as mulheres ao redor do mundo começaram a preferir o cabelo curto, seja para simbolizar a rebeldia, seja por aspectos práticos.

No começo dos anos 1950, o estilo mais popular para mulheres envolvia o uso de cachos. Na década seguinte, o cabelo curto ganhou seu lugar ao sol novamente, ao passo que em 1970 o cabelo longo entrou em voga.

Já nos anos 1980, é possível observar a popularização do cabelo preso, com o uso de rabicós e laços.

O estilo do cabelo é um forte indicativo de uma série de elementos sociais importantes, como o pertencimento a um certo grupo.

 

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Cabelo e grupos sociais

Um exemplo histórico é o grupo de apoiadores de Oliver Cromwell durante a Guerra Civil Inglesa, que cortavam o cabelo mais curto, diferenciando-se dos apoiadores do rei, que usavam cachos longos.

Isso, inclusive, levou o grupo a ser chamado de “cabeças redondas”.

Da mesma forma, mulheres que não se conformavam às normas sociais durante os anos 1920, conhecidas no Brasil como “melindrosas”, cortavam seu cabelo curto para simbolizar sua rebelião.

Nem é preciso ir muito longe para perceber o quanto o estilo do cabelo ainda designa pertencimento a grupos e subculturas.

Podemos citar, por exemplo, os longos cabelos de hippies e metaleiros, ou então os moicanos dos punks ou as franjas dos emos.

Raspar o cabelo é visto como uma forma de punição ou disciplina rigorosa, a exemplo dos cortes militares. Existem cortes curtos específicos aos monges ocidentais, ao passo que autoridades religiosas da Índia costumam ter cabelos bastante longos.

Na China, no século V a. C., existia o costume de deixar o cabelo crescer e fazer com ele uma trança, como uma forma de demonstrar devoção.

Outros significados do cabelo na história

A importância da estética capilar pode ser vislumbrada em diversos outros sentidos dado ao cabelo por diferentes culturas.

Muitas culturas, por exemplo, consideram o costumeiro cuidado com um cabelo um sinal de riqueza e status.

O estilo do cabelo sempre foi utilizado por pessoas da elite para simbolizar esses elementos. Na Roma Antiga, mulheres usavam complexas estéticas capilares que demandavam o trabalho de inúmeras pessoas.

Durante a Era Vitoriana, pessoas ricas utilizavam estilos de cabelo que restringiam os seus movimentos como uma forma de simbolizar que não precisavam trabalhar.

Por muito tempo, a estética capilar de uma sociedade costumava ser ditada pelos ricos, cujos estilos eram adotados pelas classes mais pobres. Hoje em dia, porém, é possível observar que as pessoas ricas adotam estilos mais conservadores, de décadas passadas.

Para as classes médias, o significado do cabelo tem a tendência de apontar para um estilo de vida saudável e natural, como uma forma de sugerir que possuem os recursos necessários para ter um estilo de vida adequado.

Quanto à classe trabalhadora, seu corte de cabelo, historicamente, tendeu a primar pela praticidade e simplicidade. Assim, o comum para os trabalhadores era cabelos curtos ou raspados para homens e cabelos presos para mulheres.

Atualmente, várias culturas de trabalhadores utilizam estilos de cabelos complexos e elaborados, como uma forma de simbolizar individualidade e resistência diante da invisibilização social.

Além do sentido de classe dado ao cabelo, certas culturas interpretam o corte do mesmo como a simbolização de uma libertação do passado, especialmente após dificuldades. Ademais, o corte do cabelo também é associado ao luto.

O uso do estilo Afro, ainda, foi adotado por afrodescendentes da América para simbolizar orgulho. A textura percebida como “mais africana” é um estilo visto como um sinal de autoaceitação e resistência ao padrão de beleza eurocêntrico.

Todavia, vale lembrar que afrodescendentes como um todo possuem variadas texturas e estéticas capilares, uma vez que não se trata de um grupo etnicamente homogêneo.

A estética capilar foi por muito tempo algo apropriado para diferenciar claramente os homens das mulheres.

A socióloga Rose Weitz, por exemplo, acredita que a regra cultural mais abrangente na história é que o cabelo da mulher deve ser diferente do cabelo do homem.

É claro, existem exceções a essa regra, como é o caso dos povos indígenas da Bacia dos Rios Orinoco e Amazonas.

Por outro lado, o uso de estilos similares em homens e mulheres se tornou algo desmistificado a partir dos anos 1960, especialmente em países ocidentais.

É interessante notar a importância do cabelo na questão de gênero, dado que, historicamente, o uso de estéticas capilares parecidas entre os sexos sempre causou apreensão social.

A importância do cabelo na história humana também pode ser percebida nas oportunidades em que ele é utilizado para simbolizar momentos relevantes na vida das pessoas.

Por exemplo, durante o século XIX, tornou-se comum o uso por mulheres americanas do cabelo alto, para simbolizar que já estavam na idade para casar.

O casamento, em si, é um evento que impacta a estética capilar de algumas culturas.

Um exemplo é o povo fula, em que mulheres não casadas ornamentam seus cabelos com pequenas contas e moedas, ao passo que mulheres casadas usam grandes enfeites de âmbar.

Algumas transições de idade também são simbolizadas pela estética do cabelo em algumas culturas capilares, como é o caso dos uaianas, que o raspam como uma iniciação à idade adulta.

Sentidos religiosos

Além de todos esses significados, o cabelo também tem uma importância na história humana no que diz respeito à religião.

O uso de tecidos para cobrir o cabelo feminino é algo comum em diversas vertentes ortodoxas de religiões como o islamismo e o judaísmo. Em geral, essa tradição de cobrir os fios envolve humildade e recato da mulher.

Para os homens, há a recomendação ou a obrigação de cobrir a cabeça ou partes do cabelo, bem como de cortar os pelos faciais e cabelos. Algumas vertentes do cristianismo também pregam religiosamente o corte de cabelo da mulher.

Outras tradições religiosas, como algumas vertentes do hinduísmo, também se valem de coberturas do cabelo. Os Sikhs, por exemplo, têm a obrigação de não cortar o cabelo e deixá-lo amarrado em coque na cabeça, sob um turbante.

Os dreadlocks, ainda, são outro exemplo de estética capilar associada à religião, muito embora várias pessoas utilizem os dreads por mera estética.

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